Fiesp ataca Reforma Tributária com preconceito e crueldade

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Zona Franca de Manaus: quando a concentração econômica tenta se disfarçar de neutralidade

DivulgaçãoConteúdo Especial20/05/2026 14:19, atualizado 20/05/2026 14:34Metrópoles – O mais acessado do Brasil

A ação movida pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) contra os mecanismos da Reforma Tributária que preservam a competitividade da Zona Franca de Manaus (ZFM) precisa ser chamada pelo nome que carrega.

Não se trata apenas de divergência tributária.

Trata-se de uma reação política contra qualquer tentativa de desconcentrar poder econômico no Brasil.

“Mais do que uma disputa jurídica ou tributária, o que está em jogo é o tipo de país que se pretende construir: um Brasil concentrado, em que os mais fortes acumulam ainda mais vantagens, ou uma nação capaz de usar sua política fiscal para estimular o desenvolvimento regional e reduzir desigualdades históricas. Atacar a ZFM, nesse contexto, é atacar não apenas um modelo de incentivo que permaneceu na Reforma Tributária, mas a própria ideia de um país mais equilibrado e menos desigual.”

Augusto Cesar Rocha, professor da UFAM

O discurso apresentado fala em “neutralidade”, “equilíbrio concorrencial” e “ruptura federativa”. Mas, o que emerge por trás da linguagem técnica é algo mais antigo e mais profundo: a resistência histórica das regiões mais ricas do país em aceitar que outras partes do Brasil tenham direito real ao desenvolvimento.

A lógica da concentração raramente se apresenta como concentração.

Ela costuma se apresentar como racionalidade econômica.

Mas, na prática, quase sempre dialoga com ambição desmedida, preservação de hegemonia e manutenção de privilégios históricos.

O que está em curso é uma tentativa de impedir que a Amazônia mantenha um instrumento mínimo de competitividade justamente no momento em que a Reforma Tributária fortalece ainda mais os grandes centros consumidores nacionais.

“O Constituinte de 1988 entendeu que a manutenção da ZFM como área de incentivos fiscais é o instrumento adequado para atuar positivamente em direção à busca da redução das desigualdades regionais que é um dos objetivos permanentes da República, consagrado no artigo 3o, III da CF/88.”

Lucio Flavio Oliveira, presidente executivo do CIEAM

É importante dizer isso com clareza.

A nova lógica tributária da cobrança no destino já favorece estruturalmente estados que concentram mercado, infraestrutura, logística, crédito, universidades, fornecedores e densidade industrial. Ou seja, regiões que já largaram décadas à frente do restante do país.

Ainda assim, a preservação constitucional da Zona Franca parece incomodar.

E aqui surge a contradição central.

Durante anos, o Brasil conviveu com uma ampla guerra fiscal. Incentivos foram concedidos por diversos estados à margem do Confaz. O ambiente foi tão disseminado que a própria União precisou editar a Lei Complementar 160/2017 para convalidar benefícios considerados ilegais e evitar uma crise institucional e econômica de grandes proporções.

Na prática, o país inteiro reconheceu que houve competição tributária desordenada durante décadas.

Mas, agora, justamente quando a Reforma Tributária tenta reorganizar o sistema preservando uma política regional prevista na Constituição, a reação aparece travestida de defesa da concorrência.

“A Zona Franca de Manaus tem relevante papel de promover a redução das desigualdades regionais e sociais, bem como colaborar com a preservação ambiental e da soberania nacional, auxiliando na defesa do território brasileiro, pela ocupação física de área da nossa geografia cujas riquezas e importância são reconhecidas internacionalmente.”

Luiz Augusto Rocha, presidente do Conselho Superior do CIEAM

Mais curioso ainda é que os próprios estados brasileiros participaram da construção do consenso federativo que sustentou a Emenda Constitucional 132 e as leis complementares posteriores.

Houve entendimento formal no âmbito do Comsefaz reconhecendo a necessidade de preservação da competitividade da Zona Franca de Manaus.

Ou seja, a judicialização atual não nasce da ausência de debate. Nasce da inconformidade com o resultado democrático do debate.

Os números desmontam qualquer narrativa alarmista.

Segundo a Confederação Nacional da Indústria, São Paulo concentra quase 30% da indústria brasileira. O Amazonas representa cerca de 2,3%.

Em estabelecimentos industriais, o Amazonas possui apenas 0,6% do total nacional.

Ainda assim, parte do setor econômico do estado mais rico do país resolveu tratar a existência de um polo industrial amazônico como ameaça competitiva.

Isso revela mais sobre o imaginário do poder econômico brasileiro do que sobre a realidade industrial do Amazonas.

Afinal, qual é exatamente o temor?

Que uma região isolada logisticamente, distante dos grandes centros consumidores e cercada por enormes limitações estruturais consiga preservar algum nível de atividade industrial?

O que parece incomodar não é o tamanho da Zona Franca.

É sua existência.

Porque ela desafia uma lógica histórica segundo a qual riqueza, infraestrutura e oportunidade devem permanecer concentradas nos mesmos espaços geográficos de sempre.

A Amazônia interessa ao Brasil como ativo climático, reserva mineral, patrimônio ambiental e vitrine geopolítica. Mas, parte do país ainda demonstra desconforto quando a região reivindica instrumentos econômicos capazes de sustentar sua própria integração produtiva.

Quer-se a floresta preservada. Mas sem autonomia econômica amazônica.

Quer-se estabilidade climática. Mas sem repartição mais equilibrada das oportunidades nacionais.

Quer-se soberania territorial. Mas sem presença robusta de desenvolvimento formal na região.

A indústria de Manaus ajudou o Brasil a preservar uma das maiores áreas florestais contínuas do planeta enquanto gerava emprego, arrecadação, tecnologia e presença econômica legal numa região historicamente vulnerável à ocupação predatória.

Fragilizar esse modelo não fortalece o Brasil.

Fortalece apenas a velha dinâmica nacional de concentração.

E talvez seja exatamente isso que essa disputa revela com maior nitidez.

Há setores que aceitam discutir desigualdade regional desde que ela jamais deixe de existir.

  • Artigo escrito por Alfredo Lopes, filósofo, escritor e editor da coluna Follow Up.

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Fonte: Metrópoles